Psicanálise & Cultura
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Em “Represálias Selvagens – Realidade e Ficção na literatura de Charles Dickens, Gustave Flaubert e Thomas Mann” (Companhia das Letras, 2010), Peter Gay, prolífico historiador, mostra que, por ser de ficção, um texto não está impossibilitado de expor profundas verdades humanas, bem como, por ser realista, um texto não está isento de expressar a mais intensa subjetividade do autor.

Represálias SelvagensPara tanto, Gay estabelece as diferenças entre o realismo e o romantismo, escola literária que o antecede. No realismo é dada grande importância à verossimilhança. Cenários, situações e personagens devem parecer “reais”, plausíveis, situados o mais próximo possível da vida comum e distantes dos excessos imaginativos da visão romântica.

Apesar de o romance realista oferecer ao historiador uma grande massa de informação sobre os costumes, a moral, as formas dos relacionamentos pessoais e a organização social, não deve ser esquecido que o realismo literário não é sociologia ou estudo histórico, pois nele estão presentes as inevitáveis alterações produzidas pela fantasia do autor.

As antinomias entre o realismo literário e a realidade atingem um ponto de tensão máxima no chamado “romance histórico”, no qual os personagens não são criações arbitrárias do autor e supostamente devem respeitar os fatos verídicos. Gay mostra como isso não ocorre nem mesmo em Shakespeare (em “Ricardo III”) ou Tolstoi (em “Guerra e Paz”), que terminam por distorcer os personagens históricos em função dos interesses estéticos da obra.

Gay contrapõe os escritores realistas voltados aos relatos de fatos, costumes e ações dos personagens àqueles que chama de “novos realistas”, influenciados por Joyce, Proust e Virginia Woolf. Estes privilegiam o psiquismo de seus personagens, muitas vezes detectando-lhes a dinâmica inconsciente. Assim, poder-se-ia dizer que tais escritores praticam um realismo voltado para a realidade psíquica de seus personagens. Gay cita o importante ensaio “Mr. Bennett and Mrs. Brown” de Virginia Woolf, no qual ela afirma que a função precípua do romance é a análise do caráter dos personagens e não “pregar doutrinas, cantar canções ou celebrar as glórias do Império Britânico”.

Para que se examine a presença da realidade na ficção e da ficção na história é necessário, lembra Gay, reconhecer a existência de um mundo externo real, deixando de lado as formulações do idealismo filosófico que trata tal mundo como algo criado ou inventado pela mente.

Partindo desta posição, o autor aponta dois tipos de crítica que recebem os historiadores em sua pretensão de estabelecer a verdade dos fatos em seus trabalhos. A mais antiga delas diz que romancistas e poetas são observadores mais acurados do que os historiadores, pois detectam os aspectos mais relevantes dos acontecimentos humanos. A objeção mais recente provém dos pós-modernistas, que consideram veleidades de romancistas e historiadores as afirmações concernentes à veracidade de qualquer fato, pela simples razão de não haver uma verdade. O que há é interpretações e reinterpretações de fatos. Como mostra Derrida, os textos não têm uma identidade estável, sendo sempre susceptíveis de releituras. Levado este raciocínio às últimas conseqüências, não haveria diferença entre um texto de ficção e um de história.

Para desenvolver estes interessantes temas, Gay analisa a “Casa Sombria” de Charles Dickens, “Madame Bovary” de Gustave Flaubert e “Os Buddenbrooks” de Thomas Mann.

Ao mostrar os desmandos do Tribunal de Chancery em “Casa Sombria”, Dickens denuncia o sistema judiciário inglês que, devido à corrupção, ineficácia e morosidade, destrói os demandantes em sua busca de justiça - crítica que curiosamente poderia parecer familiar a alguns ouvidos brasileiros de hoje.

Em “Madame Bovary”, Flaubert desanca o prosaísmo filisteu da pequena burguesia provinciana e Thomas Mann traça em “Os Buddenbrooks” um largo painel da decadência de uma família de aristocráticos mercadores da Liga Hanseática, cedendo espaço para o advento dos modernos e vulgares capitalistas.

Tais textos, segundo Gay, mostram como o realismo não pode ser confundido com neutralidade objetiva no trato dos temas, na medida em que decorrem de questões íntimas dos autores. São verdadeiras “vinganças” apaixonadas contra situações e circunstâncias por eles vividas. Como tal, não fazem justiça à realidade social que pretendem retratar fielmente.

“Represálias Selvagens” é um saboroso livro para os que amam a literatura, para historiadores, escritores e homens de letras em geral que, como diz Gay, “não têm medo de Freud”.

Artigo publicado no suplemento “Sabático” do jornal “O Estado de São Paulo” em 10/07/10
Categoria: Literatura
Freud e sua filha Anna chegando em Paris

O estudo da vida de Freud tem conotações especiais. Se há um grande número de biografias já publicadas, novas pesquisas ficam dificultadas, pois uma pequena parte dos dados permanece inacessível aos estudiosos. O Arquivo Freud, a instituição que os detinha, doou-os à Biblioteca do Congresso, impondo que, por questões de confidencialidade, os mesmos só poderão ser liberados em distantes datas futuras, que chegam até o ano de 2057, decisão que tem desencadeado críticas e polêmicas. Por isso mesmo, suscita curiosidade quando aparece novo material biográfico, como é o caso do livro de David Cohen, “The Escape of Sigmund Freud” (JR Books, London, 2009).

Cohen propõe-se focalizar os últimos seis anos de vida de Freud. Ater-se a este único período não é fácil, pois é necessário remetê-lo aos muitos e conhecidos episódios da vida do criador da psicanálise. Talvez venha daí a forma um tanto desorganizada com qual Cohen expõe o material.

Ao pesquisar sobre os parentes de Freud que imigraram para a Inglaterra e se estabeleceram em Manchester, Cohen, num golpe de sorte, encontrou na biblioteca daquela cidade as anotações do psicanalista norte-americano Leslie Adams que, em 1952, planejara escrever uma biografia de Freud, projeto que por algum motivo abandonou, deixando lá depositadas suas anotações, até então ignoradas por todos. Além do mais, Cohen ali pode examinar com vagar as 258 cartas de Freud para o sobrinho Sam, filho de seu irmão Emanuel.

Através deste material, pode colher mais pistas sobre o episódio envolvendo o oficial nazista Anton Sauerwald, que foi de importância capital para Freud escapar de Viena e se transferir para Londres. Sauerwald guardou consigo as provas, especialmente as ligadas às contas de Freud em bancos suíços, que, se expostas, dificultariam ainda mais as negociações em torno de sua liberação. O episódio - que não era de todo desconhecido, pois apesar de ignorado por Peter Gay, é mencionado rapidamente por Max Schur - é mostrado por Cohen com riqueza de dados, como a retribuição de Anna Freud, cujo testemunho foi definitivo para libertar Sauerwald nos tribunais do pós-guerra.

Embora seja esta sua peça de resistência, o livro de Cohen está recheado de informações sobre a família de Freud, que – na opinião do autor - se assemelha com as atuais famílias reconstituídas após os divórcios dos pais e a convivência entre meio-irmãos. Cohen cita uma bibliografia a seu ver pouco recorrida por estar não traduzida do alemão, como a correspondência entre Freud e Minna, sua cunhada com quem teria tido uma intimidade suspeita aos olhos de alguns; o texto de Anna Bernays-Freud, irmã de Sigmund, que demorou 50 anos para ser publicado; ou o relato de Paula Fichtl, a fiel empregada, que traz detalhes do cotidiano da família Freud.

O autor se surpreende com o que considera uma omissão por parte dos estudiosos da vida de Freud no que diz respeito a Sauerwald e a Harry Freud, cujos papéis estão arquivados em separado na Biblioteca do Congresso. Harry era o sobrinho de Sigmund que se envolveu profunda e equivocadamente com Sauerwald, sendo o responsável direto por sua perseguição e prisão, no que teve de ser detido por Anna Freud, que lhe explicou de ter sido Sauerwald não o ladrão do patrimônio familiar, como pensava Harry, e sim o salvador de todos.

Cohen mostra como o final da vida de Freud é pouco ressaltado nas biografias mais conhecidas, o que não lhe parece justo. Apesar das circunstâncias extraordinariamente adversas como o caos social trazido pelos nazistas e a perseguição aos judeus, o sofrimento físico provocado pelo câncer, os transtornos decorrentes da mudança de cidade e país, de forma quase inacreditável Freud continuou trabalhando, atendendo a pacientes – como a poeta Hilda Doolittle, que deixou um interessante registro de suas sessões, além de manter uma produção teórica importante. Foi justamente nesta ocasião que escreveu “Análise Terminável e Interminável”, “Moisés e o Monoteísmo”, “Woodrow Wilson” (em co-autoria com William Bullitt) e “Esboço de Psicanálise”.

Vida e obra de Freud se confundem e continuam despertando grandes paixões. No momento, na França, o filósofo Michel Onfray ataca ambas em seu livro – “O crepúsculo de um ídolo, a fabula freudiana”, sendo rebatido por autores como Elizabeth Roudinesco e Julia Kristeva.

Talvez seja mais fácil defender Freud dos freqüentes ataques decorrentes da ignorância ou má fé, como os de Onfray, do que defendê-lo da idealização que muitos lhe dedicam, privando-o da cota de falibilidade, imperfeições e limitações à qual, enquanto humanos, todos temos direito.

Publicado no caderno Cultura do jornal “O Estado de São Paulo” em 01/05/2010, sob o título “Uma viagem aos seus últimos anos”.
Categoria: Psicanálise

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